A popular expressão “Freud explica” – a tudo e a todos – tem fundamento?

 

Não obstante a obviedade de que, na imensa maioria das vezes, essa expressão seja empregada de forma descontraída, como um chiste, impõe-se esclarecer que muitas outras pessoas a levam, seriamente, ao pé da letra. Essa última possibilidade deve ser considerada como um mito. A psicanálise não explica tudo e, muito menos, resolve tudo. David Zimerman Não explica tudo, pela simples razão de que, embora tenha avançado bastante, sobretudo nas últimas décadas, a psicanálise reconhece que ainda sofre de muitas limitações. Além disso, muitos dos fenômenos que ocorrem em demais áreas da existência humana, é evidente, não dependem do psiquismo inconsciente. Quanto à possibilidade de que a psicanálise resolva todos os problemas de natureza psíquica, seguramente é um mito que surge quando ela é idealizada a ponto de ser confundida com algo de natureza mística, sobrenatural ou com alguma forma de ciência oculta, o que também deve ser considerado como um mito.

A psicanálise promete a felicidade?

 

Não, não promete. Um tratamento psicanalítico propõe-se (é diferente de prometer) a não só aliviar sintomas com sofrimento psíquico – em situações agudas, de crises, ou em situações cronificadas –, como também, e principalmente, tentar promover algumas necessárias mudanças na estrutura psíquica do mundo interno do paciente que possibilitem que este libere a energia psíquica que está sendo gasta inutilmente para a contenção dos conflitos inconscientes, de sorte que a liberação dessa energia propicie um melhor aproveitamento na vida exterior e uma harmonia interior. Essa busca de um sentimento de liberdade em relação à opressão interior que, na maioria das vezes, é oriunda de falhas no desenvolvimento emocional primitivo não significa que o processo analítico se desenvolva em um mar de felicidade; pelo contrário, trata-se de uma jornada de longo curso, custosa, geralmente com alguns períodos difíceis, porém está longe de ser um “inferno de Dante”, como alguns apregoam. Nem sempre a análise é plenamente exitosa, algumas vezes ela pode fracassar, mas na grande maioria das vezes consegue produzir resultados altamente benéficos (não é o mesmo que alcançar um paraíso) que possibilitam uma inegável melhoria na qualidade de vida e no despertar de talentos e de capacidades que estavam latentes. O próprio Freud, para alertar que a psicanálise não prometia uma plena felicidade, costumava afirmar, em um tom por demais pessimista, que, no máximo, ela consegue transformar a infelicidade neurótica, porém sempre persistirá a inevitável parcela da infelicidade comum, inerente à própria condição de se viver a realidade.

Um tratamento analítico pode levar algum paciente à piora, ou até mesmo à loucura?

 

Não é verdade! Em mais de 25 anos de prática pscanalitica e psicoterápica, nunca evidenciei um caso sequer em que o paciente tenha “enlouquecido” devido a uma terapia analítica, quando bem conduzida. O que pode acontecer é a emergência de difíceis sentimentos no paciente que transitoriamente o angustiem e o confundam, dando uma sensação subjetiva de que possa “enlouquecer”. Na maioria das vezes, embora bastante penosa, essas fases difíceis da análise representam um indício promissor de que importantes mudanças estão se processando no psiquismo do paciente. Na verdade, essa crendice tem origem no medo de muitas pessoas de entrar em contato com as partes ocultas do seu psiquismo que estão reprimidas em seu inconsciente sob a forma de fantasias terroríficas, ou de desejos, sentimentos e pensamentos Psicanálise. Não costumo observar pioras verdadeiras, o que pode acontecer é a ocorrência de fases difíceis no curso da análise que dão ao paciente, e muitas vezes aos familiares e amigos, uma nítida sensação de piora, que, na grande maioria das vezes, ocorre em função do contato do paciente com verdades penosas, porém, isso pode significar um prenúncio de que se trata do início de uma importante melhora.

Existe uma crença de que, fora da situação analítica, os psicanalistas costumam observar e interpretar os outros. Isso é verdade?

 

Salvo inevitáveis exceções, essa crença não passa de um mito. Qualquer analista bem formado consegue facilmente separar a sua vida pessoal da profissional. Fora da situação analítica, o terapeuta se comporta como qualquer ser humano que também, em algum grau, tem seus problemas e possíveis angústias existenciais e que convive normalmente com os demais, provavelmente com menos críticas, com uma maior consideração e melhor escuta, sem contaminar os fatos exteriores com as vivências íntimas da análise. Na verdade, o que é mais freqüente é que determinados pacientes, mais comumente no início de suas análises, costumam observar tudo e a todos com um “olhar psicanalítico” e costumam dar insistentes “interpretações” a familiares e amigos, quando não a desconhecidos, até mesmo em reuniões sociais.

E a crença de que, em sua maioria, os psicanalistas são pessoas muito onipotentes e complicadas é verdadeira?

 Também não é verdade no sentido absoluto, embora não seja muito rara a possibilidade de que muitos apresentem, sim, claras evidências de que possam ter uma vida privada complicada e sejam demasiadamente obsessivos ou porfiadores, ou tímidos, ou arrogantes, ou abusadores de bebida alcoólica, tabaco, etc., como qualquer ser humano. Esta possibilidade de ter alguma faceta complicada não significa necessariamentemente que este analista não seja bastante competente, desde que esse seu lado comprometido não predomine na sua personalidade e que ele consiga administrá-lo suficientemente bem. Outra possibilidade que deve ser levada em conta é a de o paciente projetar a sua própria onipotência no seu analista e, assim, divulgar publicamente a imagem idealizada do terapeuta.

Continua válida a afirmativa, atribuída a Freud, de que toda a psicanálise gira em torno da sexualidade?

Em primeiro lugar é necessário esclarecer que “sexualidade”, na obra de Freud, não é o mesmo que “genitalidade”, embora nos primeiros tempos de sua obra, de fato, houvesse uma superposição de ambas que, posteriormente, ele mesmo corrigiu. Assim, em um significado genérico, o conceito de sexualidade alude a alguma forma de libido, alguma estimulação de mucosas e outras partes do organismo que podem, ou não, permanecerem erotizadas. Na atualidade, a psicanálise continua atribuindo um papel primacial à sexualidade, principalmente aos conflitos provenientes do complexo de Édipo. No entanto, a importância de Édipo está sendo compartida com uma igual relevância de Narciso, ou seja, remonta às fases mais primitivas do desenvolvimento da personalidade do sujeito, para ser mais exato, desde a condição de recém-nascido em relação ao seu entorno ambiental. Em resumo: muitos ainda hoje perguntam se o termo “sexualidade” empregado por Freud designa a prática de uma relação sexual ou é outra coisa, e, sem dúvida, a resposta é que se trata de outra coisa, que não unicamente a genitalidade.

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